Liderança à brasileira
Que JK era democrata parece não haver dúvidas. Mas teria sido ele um líder político independente e efetivo, tal como nos faz crer a minissérie da Globo? Ou teria sido, antes de tudo, um conciliador necessário diante da conjuntura política nebulosa dos anos seguintes à ditadura de Vargas? Reinaldo Azevedo, do site Primeira Leitura, é crítico em relação à estas questões:
“Não interessará, quero crer, o golpe militar do marechal Lott que, no fim das contas, lhe garantiu a posse. Golpe, com efeito, preventivo, já que outro estava em curso. Ao longo de seu governo, houve várias crises militares, de que a revolta de Aragarças (pesquisem a respeito) foi a mais notória. Entre seus protagonistas estava João Paulo Moreira Burnier, o mesmo que, nos dias que antecederam o AI-5, quis explodir o Gasômetro, no Rio de Janeiro. Exilou-se junto com outros conspiradores e foi anistiado no governo Jânio Quadros, que sucedeu Juscelino. O candidato do construtor de Brasília, batido pelo homem da vassoura, foi o mesmo Lott, militar, que lhe garantiu a posse. Havia algo de errado com a democracia gerenciada por Juscelino.”
Quanto ao carisma de JK, os comentários de Otávio Frias Filho, redator chefe da Folha de São Paulo, são elucidativos:
“Juscelino Kubitschek ficou associado, na memória coletiva, ao principal mito da identidade nacional brasileira, o da "cordialidade". (...)
No entanto, conforme a sociedade se industrializa e se urbaniza, como já ocorria quando "Raízes do Brasil" foi publicado, a "cordialidade" tende a desaparecer. Como todo mito, a versão "popular" da cordialidade é um amálgama de verdade e fantasia. Basta espiar o noticiário ou circular pelas grandes cidades para verificar a falsidade da crença de que o brasileiro é pacífico, cordial etc.".
Obviamente, tal como Frias Filho aponta, a cordialidade brasileira é um mito. Mas, tal como Sérgio Buarque de Holanda apontou em “Raízes do Brasil”, é de se supor que nosso povo, e consequentemente nossos líderes, tenham herdado a característica lusitana da conciliação.
Vejamos:
1) Nossa independência foi marcada pela conciliação ("Pedro, meu filho, quando chegar a hora, coloque a coroa em sua cabeça, antes que um aventureiro o faça”, teria dito D.João VI a seu filho D. Pedro II; 2) toda a política do café-com-leite foi conciliatória; 3) Getúlio foi, quando pôde, déspota. Mas foi, antes de tudo, conciliador; 4) JK foi conciliador; 5) Sarney não fugiu à regra; 6) FHC, idem ; 7) Lula surpreendeu com, por assim dizer, uma “conciliação econômica”.
Obviamente, os períodos de exceção, em que o país foi governado de maneira autocrática não permitem admitir que tenhamos sido conciliatórios ao extremo. Somente neste ano de 2006 nossa maioridade democrática. Lá se vão quase 21 anos que Tancredo, bom mineiro e conciliador como JK, nos deixou. Nesse sentido, termino com uma citação de Frias Filho:
"Tanto as ditaduras que tivemos, como a resistência violenta a elas, foram relativamente brandas. A violência é intensa, mas capilar e desorganizada. As razões disso ainda são, talvez, o maior enigma da formação brasileira. Será que o abismo social entre as classes generaliza a percepção de que é perigoso demais politizar a violência? Será que ao recebermos levas de idéias européias fora do contexto de origem e as utilizarmos apenas como ostentação ornamental desenvolvemos, também, certo ceticismo quanto aos dogmas e uma saudável sensação de que não vale a pena morrer por uma idéia?”.
Escrito por Marcelo Passos às 22h41
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