Trivial não-variado

Apesar das últimas declarações de Mantega apontarem no sentido de uma manutenção da política econômica, ainda havia quem apostasse em uma queda mais rápida da taxa básica de juros.

Com as nomeações recentes no segundo escalão da equipe econômica, Mantega e Meirelles ratificaram a política econômica do “trivial não-variado”: juros altos, superávits primários elevados e câmbio flutuante.  

 

Mantega, das palavras à ação, não demonstrou nenhuma incoerência: promoveu Paulo Valle de coordenador da dívida pública para secretário-adjunto de Carlos Kawall, atual secretário da Fazenda (também indicado pelo ministro da Fazenda).     

 

Paulo Valle vem sendo um dos articuladores do alongamento do perfil da dívida pública. As medidas recentes relacionadas ao tema foram comentadas neste blog. 

 

Pelo lado de Meirelles, o Banco Central anunciou hoje a nova composição de sua Diretoria.

 

Mário Mesquita assumiu a Diretoria de Estudos Especiais do Bacen; Paulo Vieira da Cunha, a Diretoria de Assuntos Internacionais. Substituíram, respectivamente, Alexandre Tombini (que assumiu a Diretoria de Normas, no lugar de Sérgio Darcy) e Alexandre Schwartsman.

 

Mário Mesquita é tem bom seu perfil acadêmico e experiência profissional: é doutor por Oxford e foi economista-chefe do ABN Amro. É também, amigo pessoal de Afonso Bevilacqua, tido como um dos mais influentes membros da diretoria do BC. 

 

Paulo Vieira da Cunha foi diretor de pesquisa do HSBC para a América Latina.  

 

As indicações de Mesquita e Cunha obviamente agradaram aos mercados financeiros.

 

José Alan Dias, de Primeira Leitura, analisou no artigo “Vaivém”: “na prática, o Copom ganhou mais um voto técnico. Darcy, funcionário de carreira do banco e que votava nas reuniões, é especialista em normatização do mercado financeiro, não tendo a mesma familiaridade com modelos econométricos como Tombini, ex-representante do Brasil no FMI, Mesquita e Vieira da Cunha. Mais votos técnicos significam, na avaliação do mercado, maior debate em torno da questão da inflação. Pelas contas de Alexandre Póvoa, do banco Modal, com a transferência de Tombini para a Diretoria de Normas, o número dos chamados votos técnicos no Copom sobe de 5 para 6, de um total de 9 votantes. Essa nova configuração do comitê, com mais “técnicos”, pode ser decisiva na já conservadora conduta do BC”.

 

Com efeito, os novos nomes da diretoria do BC confirmaram a conversão irrestrita de Mantega à continuidade da política econômica.

 

Ainda bem que falamos de Economia e não de Religião. Trocar de cargo na prática da Economia é muito mais fácil do que trocar de religião, pois os recém-convertidos são em geral ávidos por provar sua fé.

 

Usualmente, começam  por desprezar a fé que professavam anteriormente.  



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 00h14
[] [envie esta mensagem]



Outra charada

Existiria campanha pelo voto nulo se o voto não fosse obrigatório?



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 23h26
[] [envie esta mensagem]



Charada do dia

O que dizer de um país em que os deputados éticos, para preservar a ética, abandonam o Conselho de Ética?



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 23h21
[] [envie esta mensagem]



O Consenso de Belo Horizonte

Em Belo Horizonte, no último dia 31 de março, num evento patrocinado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), três economistas de renome internacional, um ortodoxo e dois heterodoxos, debateram sobre questões relacionadas ao desenvolvimento econômico global. O ortodoxo é John Williamson, economista britânico, a quem se atribui a paternidade do Consenso de Washington.

 

Um dos heteredoxos é Joseph Stiglitz, prêmio Nobel em Economia no ano de 2001. Stiglitz é um novo-keynesiano que, dono de invejável sofisticação intelectual, disse certa vez que instituições como o FMI e o Banco Mundial contratam os piores alunos de Economia das melhores universidades. Devia saber o que estava falando, pois foi vice-presidente do Banco Mundial no período de 1997-2000.

 

Outro heterodoxo é Douglass North, principal expoente da escola institucionalista, que atribui um papel preponderante às instituições na história do desenvolvimento econômico das nações.  Norh ganhou o Prêmio Nobel em 1993. Já está com 86 anos, mas com uma vitalidade e jovialidade raras para um homem nesta idade - ainda mais sendo economista (Economia é a "ciência lúgubre", tal como dizia Carlyle). 

 

John Williamson, que surpreendentemente vem defendendo uma revisão as idéias centrais do Consenso de Washington, não se mostrou tão ortodoxo quanto nossos economistas mais realistas do que o rei sugerem.  

 

Curioso foi que, North, Stiglitz e Williamson, formaram, mineiramente, um consenso interessante. Concordaram em cinco pontos (ainda que o debate não tenha sido, de forma alguma, morno):

 

1)    o Brasil está atrasado no andamento da redução das taxas de juros;

2)    também deve reduzir sua carga tributária (inclusive para os mais ricos);

3)    os países devem fazer gastos sociais para reduzir seus níveis de pobreza e desigualdade;

4)    a teoria econômica deve incorporar a importância vital que o progresso tecnológico vêm assumindo nas últimas décadas. Ainda há muito que fazer para que tal progresso assuma um papel tão relevante na teoria econômica quanto o é na prática;

5)    não há como comparar o Brasil com a Índia e a China;

6)     Não há atalhos ou fórmulas mágicas para o desenvolvimento econômico. Cada nação que cuide de encontrar sua própria combinação de políticas públicas que a leve para uma trajetória virtuosa de desenvolvimento.

 

 

 

Joseph Stiglitz



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 23h18
[] [envie esta mensagem]



Os economistas daqui e os de lá

É  relevante, obviamente, dar atenção ao que North, Stiglitz e Williamson têm a dizer.

 

Mas ouvi-los e lê-los serve, sobretudo, para reforçar o que a torcida do Flamengo já sabe. Suas idéias não diferem muito das dos economistas brasileiros com boa reputação acadêmica.

 

Desde meados dos anos 90, a academia brasileira vem formando economistas que possuem nível de excelência similar aos dos melhores economistas norte-americanos ou europeus.  

 

O advento da internet, o aumento do intercâmbio com universidades estrangeiras e da concessão de bolsas de estudo e pesquisa, contribuíram para isto.

 

Pesa ainda contra nós, economistas brasileiros, o fato de que ainda muito poucos publicam artigos no idioma inglês e ainda nos preocupamos muito com temas associados à economia brasileira. Há ainda muito pouca pesquisa na área de teoria econômica ou economia internacional, por exemplo.



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 23h17
[] [envie esta mensagem]



Educação: o “óbvio ululante”

Em uma terra de tão poucos e demorados consensos, levamos alguns séculos para começar a enxergar o óbvio “ululante”: nossa gente precisa de educação de qualidade.

 

Não é tão fácil perceber  o "óbvio ululante", expressão cunhada por Nélson Rodrigues.  É preciso no mínimo ter alguma inteligência e, em muitos casos, experiência. 

 

Com nossa experiência acumulada de (falta de) educação, muitos economistas brasileiros passaram a analisar os efeitos dos chamados investimentos em capital humano.  Fizeram isto a partir de modelos econométricos que medem o impacto destes investimentos no crescimento econômico. Provaram que investir em capital humano ajuda a  promover crescimento.   

 

Todavia, a educação é tão importante que seu debate não deve estar restrito aos meios econômicos. A educação deve ser tratada como essencial para a expansão das liberdades substantivas individuais. Essa é a visão de Amartya Sen (1933 -  ) , economista indiano ganhador, em 1998, do Prêmio Nobel em Economia. 

 

Sen teorizou sobre o fato de que educar não é apenas preparar alunos para o mercado de trabalho, mas ajudá-los a ver. Não é investir em capital humano para elevar a produtividade sistêmica, mas ampliar a capacidade das pessoas serem mais livres, mais cidadãs e menos dependentes.

 

Aliás, esta é a razão de seus livros serem tão primorosamente escritos: sua boa Ciência Econômica consegue a proeza de louvar, ao mesmo tempo, a Lógica, a Ética e o bom-senso.

 

Para o economista e filósofo inglês John Stuart Mill (1806-1833) o papel do sistema educacional é menos ambicioso, ainda que continue potencialmente libertador:  aprimorar os hábitos do povo, a promoção do seu bom-senso e da sua capacidade de análise.

 

Mas por que é tão complexo implementar medidas na área de educação? Por que é tão difícil atingir os objetivos descritos por Mill e Sen? 

 

Há três problemas básicos e de difícil solução: 1) quem possui bom nível educacional sabe que educação gera poder, sendo muito raro quem tenha poder e esteja realmente disposto a compartilhá-lo; 2) quem mais precisa de Educação é justamente quem percebe menos a sua própria carência de Educação; e 3) uma boa Educação necessita de recursos que, nos casos de países pobres, não estão disponíveis.  

 

Repare, caro leitor, que o dois primeiros problemas não estão relacionados com o terceiro. No caso do Brasil, os investimentos em Educação são maiores do que a média dos países em desenvolvimento.  Nosso problema não é volume dos gastos educacionais, mas a transformação destes gastos em ensino público de qualidade. 

 

Nesse sentido, os dois primeiros problemas são os que merecem nossa atenção.



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 04h40
[] [envie esta mensagem]



Compartilhar educação é compartilhar poder

O próprio ato de educar é um ato de poder.

 

Um bom professor é alguém que sabe utilizar o seu poder em prol da educação dos alunos. Um mau professor usa este poder em prol de si mesmo.

 

De qualquer modo, o poder efetivo é dos alunos que ouvem o professor, embora a maioria dos alunos infelizmente não perceba isto. Um psicanalista sabe que em qualquer diálogo o poder maior é de quem ouve e faz as perguntas e não de quem as responde.

 

O mais eficaz instrumento de inclusão e de redução das desigualdades sociais é a educação. É um instrumento tão eficaz que, em praticamente todas as  nações populosas e de grande extensão territorial, como Índia, Indonésia, Paquistão, China, Estados Unidos e Brasil, a desigualdade educacional é muito elevada.

 

A única exceção a esta regra é a Rússia, ex-União Soviética, onde o regime comunista conseguiu educar a população. Mas a educação da antiga União Soviética não tinha seu essencial caráter de instrumento de inclusão social. No regime comunista, havia como estudar, mas não havia como enriquecer. Ou seja, os soviéticos dispunham dos meios, mas não dispunham dos fins educacionais.

 

Nesse sentido, compartilhar educação, em nível amplo, é compartilhar poder.

 

O que diria, caro leitor, um filósofo político como Maquiavel sobre a expressão “compartilhar poder”?

 

Diria o "óbvio ululante": só uma seqüência de bons governos para melhorar a qualidade da educação a ponto de haver uma desconcentração de poder em favor dos mais necessitados.

 

Obra para, no mínimo, trinta ou quarenta anos com gestão educacional, em nível federal, estadual e municipal realmente séria e comprometida.



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 04h36
[] [envie esta mensagem]



Educar é, aos poucos, dar visão a quem não enxerga

John Stuart Mill disse que o consumidor, quando consome a maior parte dos bens materiais produzidos para seu uso, é um bom juiz. Mas apontou que há alguns bens cujo valor não pode ser medido pelo consumidor. Estes bens não atendem à sua inclinação ou não servem para os usos diários da vida. A falta destes bens tende a ser menos sentida exatamente onde a necessidade do consumidor é maior.

 

Entre estes bens, em geral imateriais ou simbólicos, se encontram aqueles que “são úteis sobretudo como  meios que tendem a melhorar o caráter dos seres humanos” [1]. A Educação e a Religião são os  principais exemplos deste tipo de bens.

 

Para Mill, as pessoas que carecem de educação formal frequentemente possuem uma noção imperfeita ou totalmente equivocada do tipo, da qualidade e do grau de da Educação que precisam. Assim, um governo que possui um nível de informação adequado acerca das carências educacionais de seus mandantes, o povo, tem por obrigação oferecer “instrução e educação melhores do que as exigidas espontaneamente pela maior parte da população”. 

 

Mill e Sen foram bem educados e souberam ver que educar é como levar a visão a um portador de cegueira absoluta. O problema é que isto é feito em homeopáticas, doses diárias a que chamamos de aulas. O difícil é convencer o deficiente visual de que ele melhorará sua visão dia após dia. 

 

É grande a tentação de um idoso que não enxerga se satisfazer com, digamos, 60% de sua visão, após um tratamento de alguns meses. É maior ainda a tentação de um jovem ir para o mercado de trabalho apenas com o segundo grau incompleto, uma vez que este jovem pode voltar a estudar no futuro.

 

Um professor, ao ensinar, vê melhor o mundo. Ajuda seus alunos a, de acordo com o desenvolvimento e, sobretudo, vontade, a verem melhor o mundo.

 

Educar é ver e ajudar a ver. Ou, nos versos de Fernando Pessoa:

 

 

"Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do universo... 

 

Por isso minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer...

 

Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não do tamanho da minha altura...

 

Nas cidades a vida é mais pequena

Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro,

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,

Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,

Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,

E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver."

 

Fernando Pessoa  (1888-1935)  in Alberto Caeiro -  "O Guardador de Rebanhos" (1911-1912).

 

 

 

Fernando Pessoa

 

 



Escrito por Marcelo de Oliveira Passos às 04h35
[] [envie esta mensagem]



[ ver mensagens anteriores ]





Meu perfil
BRASIL, Sul, CURITIBA, Homem, Portuguese, English, Male


Histórico
13/01/2008 a 19/01/2008
30/09/2007 a 06/10/2007
08/10/2006 a 14/10/2006
01/10/2006 a 07/10/2006
24/09/2006 a 30/09/2006
17/09/2006 a 23/09/2006
10/09/2006 a 16/09/2006
03/09/2006 a 09/09/2006
27/08/2006 a 02/09/2006
20/08/2006 a 26/08/2006
13/08/2006 a 19/08/2006
06/08/2006 a 12/08/2006
30/07/2006 a 05/08/2006
23/07/2006 a 29/07/2006
16/07/2006 a 22/07/2006
09/07/2006 a 15/07/2006
02/07/2006 a 08/07/2006
25/06/2006 a 01/07/2006
18/06/2006 a 24/06/2006
11/06/2006 a 17/06/2006
04/06/2006 a 10/06/2006
28/05/2006 a 03/06/2006
21/05/2006 a 27/05/2006
14/05/2006 a 20/05/2006
07/05/2006 a 13/05/2006
30/04/2006 a 06/05/2006
23/04/2006 a 29/04/2006
16/04/2006 a 22/04/2006
09/04/2006 a 15/04/2006
02/04/2006 a 08/04/2006
26/03/2006 a 01/04/2006
19/03/2006 a 25/03/2006
12/03/2006 a 18/03/2006
05/03/2006 a 11/03/2006
26/02/2006 a 04/03/2006
19/02/2006 a 25/02/2006
12/02/2006 a 18/02/2006
05/02/2006 a 11/02/2006
29/01/2006 a 04/02/2006
22/01/2006 a 28/01/2006
15/01/2006 a 21/01/2006
08/01/2006 a 14/01/2006
01/01/2006 a 07/01/2006
25/12/2005 a 31/12/2005
18/12/2005 a 24/12/2005
11/12/2005 a 17/12/2005
04/12/2005 a 10/12/2005
09/10/2005 a 15/10/2005
02/10/2005 a 08/10/2005


Categorias
Todas as mensagens
Link
Citação


Votação
Dê uma nota para meu blog


Outros sites
Grupo de Estudo de Macrodinâmica do Desenvolvimento
Prof. Dr. José Luis Oreiro
OREIRO, José Luis; CURADO, Marcelo Luiz; DEZORDI, Lucas; PASSOS, Marcelo. Uma análise da proposta de déficit nominal zero. Curitiba. CMDE/UFPR 2005.
Economia UFPR
Boletim Economia & Tecnologia da UFPR
Joelmir Beting On Line
OREIRO, Jose Luis; PASSOS, Marcelo. A governança da Política Brasileira: Análise e Proposta de Mudança. Curitiba,CMDE/UFPR/CNPq.
Economia em Debate
Economistas do futuro
Economia Exposta
Rabiscos Econômicos
De Gustibus non est Disputandum
Economia UTP
Economics Industry - Blogshares
Olhar Econômico
Blog do Alon
Pura Economia
Technorati
Bresser-Pereira
Economics Roundtable
Sobre Sites: Guia de Blogs
AC Investor Blog